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Nova revisão questiona o jejum intermitente na perda de peso

Mulher bebendo água na cozinha com prato de salada, laptop e agenda à sua frente.

Toda dieta tem seu momento de destaque, mas novas evidências começam a esfriar o entusiasmo em torno do jejum intermitente.

Uma nova e ampla revisão de estudos clínicos indica que diferentes padrões de jejum não superam as dietas convencionais quando o objetivo é perda de peso - pelo menos no curto prazo.

O que a revisão encontrou sobre jejum intermitente e perda de peso

Segundo os dados reunidos, ao longo de um ano o jejum intermitente gerou mudanças muito pequenas do ponto de vista clínico. Na prática, a estratégia popular parece não ser melhor para reduzir 5% do peso corporal do que simplesmente não fazer nenhuma alteração na alimentação.

Os autores, liderados por Luis Garegnani, do University Institute of the Italian Hospital, em Buenos Aires, Argentina, escrevem: "Em comparação com recomendações dietéticas tradicionais (como restringir calorias ou comer diferentes tipos de alimentos), o jejum intermitente pode fazer pouca ou nenhuma diferença para a perda de peso e para a qualidade de vida em adultos com sobrepeso ou obesidade".

A equipa internacional afirma estar "moderadamente confiante" nas conclusões relacionadas à perda de peso. Já para outros desfechos ligados à dieta, eles consideram que as evidências são "muito incertas".

Como foi feito o levantamento e quem participou

A revisão global reuniu 22 ensaios clínicos randomizados sobre jejum intermitente, publicados entre 2016 e 2024. No total, 75 estudos ficaram de fora - em alguns casos, porque o acompanhamento foi inferior a 6 meses.

Somando os trabalhos incluídos, a análise abrangeu quase 2.000 participantes distribuídos por América do Norte, Austrália, China, Dinamarca, Alemanha, Noruega e Brasil.

Protocolos avaliados: alimentação com restrição de tempo e outros formatos

Os ensaios analisaram diferentes abordagens de jejum intermitente, entre elas:

  • Alimentação com restrição de tempo (concentrar as refeições numa janela diária, geralmente de 10 horas ou menos);
  • Jejum periódico por um ou dois dias na semana;
  • Jejum em dias alternados;
  • Jejum em dias alternados modificado (por exemplo, dois dias de jejum e cinco dias de alimentação habitual).

Muitos desses estudos chegaram a resultados inconclusivos. Além disso, nenhum deles relatou satisfação dos participantes, estado de diabetes ou outros problemas de saúde. Entre os estudos que compararam jejum intermitente com ausência de mudanças na dieta, apenas um avaliou qualidade de vida e somente dois investigaram eventos adversos, como fadiga, dor de cabeça ou sensação de mal-estar.

Os autores também apontam um limite importante nas evidências existentes: "Embora uma revisão recente da Cochrane tenha abordado os efeitos do jejum intermitente na prevenção e redução do risco de doença cardiovascular, a maioria dos estudos incluídos recrutou participantes sem sobrepeso ou obesidade, limitando os achados para essa população".

Diante desse cenário, ainda parece haver muito a esclarecer antes que médicos passem a recomendar o jejum intermitente como estratégia para pessoas com obesidade perderem peso ou melhorarem a saúde metabólica.

Apesar da falta de evidência robusta, a dieta ganhou popularidade nos últimos anos. A lógica por trás da prática é que, num estado de "jejum", o metabolismo do corpo mudaria para usar reservas de gordura como fonte de energia.

Os dados iniciais sugerem que isso pode trazer benefícios para o cérebro, o intestino e o metabolismo. Porém, existem várias versões de jejum intermitente, e algumas evidências indicam que elas não necessariamente modificam marcadores de saúde metabólica ou cardiovascular.

Mesmo quando alguém segue um protocolo de jejum de forma rigorosa, estudos apontam que os ganhos podem variar bastante de pessoa para pessoa - e que também há possíveis desvantagens a considerar.

Lacunas de evidência e os próximos passos da investigação

Dado o quanto ainda é desconhecido, Garegnani e colegas defendem novos estudos para entender como o jejum intermitente afeta diferentes grupos - incluindo géneros e faixas socioeconómicas -, pois, segundo eles, "o impacto potencial do jejum intermitente pode agravar quaisquer inadequações nutricionais".

Maik Pietzner, modelador de dados em saúde no Berlin Institute of Health at Charité, disse ao The Guardian que a sua própria investigação constatou que são necessários vários dias de jejum para que benefícios metabólicos apareçam no sangue.

"Se as pessoas se sentem melhor com esses regimes alimentares, eu não as impediria, mas este trabalho, junto com outros na área, mostra claramente que não há evidência robusta de efeitos positivos além de uma possível perda de peso moderada", afirmou Pietzner ao repórter Ian Sample.

"Os nossos corpos evoluíram sob escassez constante de alimentos e lidam muito bem com períodos prolongados sem comida, mas isso não significa que tenhamos um desempenho melhor quando esses programas [evolutivamente] conservados entram em ação".

O estudo foi publicado na Cochrane Database of Systematic Reviews.

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